Observatório
Questão de Tempo
Em 1857 o mundo vivia momento inigualável. O vapor e o aço davam vida e corpo às novas máquinas, criando promissor cenário de abundância e conforto. Em 1857, Nova York era a maior cidade dos Estados Unidos e simbolizava tudo isso. Com as novas máquinas, com o progresso, o mundo duro, brutal, desumano começava a ficar para traz. Ou será que não?
Em 1857, em condições insalubres, homens, mulheres e até crianças trabalhavam em jornadas de até 16 horas por dia nas fábricas de têxteis, em troca de salários de fome, literalmente. Quem não aceitasse tinha seu lugar ocupado pelos que chegavam em busca de oportunidades.
É nesse ambiente de 08 de março de 1857, em Nova York, que mulheres fizeram uma greve, tentando reduzir de 100 para 60 horas a jornada de trabalho semanal. Ao serem trancadas num galpão que posteriormente foi destruído em chamas, a morte de cada uma dessas mulheres em situação tão trágica foi a chama que se acendeu para que o movimento de valorização feminina se iniciasse.
Mas, numa sociedade tipicamente agrária, em que a máquina pouco se fazia presente, tudo dependia da força do homem. Então, a chegada de um “filho homem’ era motivo de muita alegria. Para as famílias de poucas posses, era a garantia da expansão da força de trabalho. Para as famílias abastadas, era a certeza de um defensor do clã frente a um mundo hostil. Já o nascimento de uma filha significava problema. Significava o custo de alimentá-la e vesti-la até a puberdade. A partir daí, sempre existia o risco potencial da gravidez. Então, o melhor era estimular o casamento o mais cedo possível. Por isso, muitas de nossas antepassadas casaram com 16 ou menos anos de idade.
Por que existiam o dote e o enxoval? O dote era a recompensa monetária ou patrimonial, dada ao futuro marido, por ele assumir as responsabilidades de alimentar e vestir a esposa, assumindo um ônus que, até então, era da família da esposa. Já o enxoval era a forma de amortizar parte do custo fixo inicial desse empreendimento, o casamento, que ele estava assumindo. E, depois de feito o acordo, não havia a possibilidade de se desfazer o negócio (casamento indissolúvel).
Hoje, todos reconhecem a importância da mulher como agente produtivo. A força física não tem mais valor, pois a força da máquina substituiu a força do homem. O que importa, agora, é a criatividade, a determinação e a sensibilidade, características típicas da mulher.
A mulher brasileira vem ocupando rapidamente espaço na sociedade. Nas universidades federais, o maior número de aprovados é feminino. Nos cursos de economia, administração e direito, as mulheres já são ampla maioria. As mulheres têm tempo médio de estudo maior que os homens em 16%. Jogam futebol, apitam jogos, dirigem taxi e caminhão. São delegadas, promotoras e juízas. De aeromoças, viraram pilotas de avião. O último censo do IBGE revelou que uma em cada duas mulheres brasileiras trabalha fora de casa, e uma em cada quatro famílias brasileiras é chefiada por uma mulher.
Falta, agora, traduzir tudo isso em remuneração igual ao do homem. Mas, isso é questão de tempo. De muito pouco tempo.
Paulo do Carmo MartinsDoutor em Economia Aplicada pela USP/Esalq, Professor da FRA/UFJF