Observatório
Terremotos à vista
Janeiro começou com o terremoto no Haiti, um povo condenado pelas grandes potências a dar errado, desde que tiveram a audácia de entrar para a história como o primeiro país do mundo a abolir a escravidão, ainda em 1794, e eleger um presidente negro. De lá para cá, o que as grandes potências fazem é assegurar que o Haiti não será modelo para nada ou ninguém.
A tragédia do terremoto serve apenas para mostrar como é possível deixar feridas expostas numa sociedade que não tem instituições capazes de se auto-regular, pois todas as vezes em que isso é tentado, vem interferência externa pesada, mortífera, com a participação de mercenários. O último presidente eleito deles foi retirado do poder e levado para fora do país pelo exército americano. Isso é mais grave que o ocorrido com o Presidente Zelaya, retirado do poder por patrícios. No caso de Aristide, em 2004, não houve comoção mundial.
Sensibilizo-me quando vejo, pela televisão, militares brasileiros embarcando para o Haiti, ou quando vejo ao vivo os “boinas azuis”, na parada militar de Sete de Setembro. Falo deles com meu filho de dez anos. São brasileiros que vão para lá numa missão muito difícil, a viverem situações muitas vezes desesperadoras, antes mesmo do terremoto de semanas atrás.
Mas, este não é o único terremoto de janeiro. Na Argentina, a presidenta do país resolveu seguir sugestão de conselheiros tresloucados e demitiu o presidente do Banco Central. Particularmente, sou contra a independência do Banco Central. Como economista e formando outros há um quarto de século, entendo que assunto econômico é importante demais para ser decidido somente por economistas. Mas, não dá para passar por cima das instituições, cometendo o ato ilegal de demitir quem não é seu subalterno. E, o que é pior, o motivo da divergência é que a presidenta do Executivo quer usar o Banco Central para sanear o rombo das contas de seu governo.
No domingo passado, as manchetes dos dois principais jornais davam a exata noção do que se transformou a sociedade argentina. No La Nación o assunto era o impedimento, por seguranças a mando de assessores presidenciais, do presidente do Banco Central e sua equipe de entrar na sede do banco no final de semana. Coisa de porteiro de boate impedindo a entrada do gerente, entende?
Já no El Clarin, o assunto era que a prefeitura de Buenos Aires e a presidência do país travam feroz disputa para ver quem irá coordenar os trabalhos de comemoração de 200 anos de independência argentina, que ocorrerá em 25 de maio deste ano. É, ou não é, uma demonstração explícita de imaturidade pública?
Janeiro também nos trouxe o terremoto Venezuela, demonstrando que sempre é possível piorar aquilo que não está bom. Desejaria comentar sobre a trajetória destes dois países nesse momento de suas histórias, pois me parecem convergir. Mas o espaço do artigo é finito. Então, voltaremos ao assunto. O ano começou com terremotos à vista. O do Haiti pode ser o menor deles.
Paulo do Carmo MartinsDoutor em Economia Aplicada pela USP/Esalq, Professor da FRA/UFJF